Estruturação e Identificação de Produtos em Ambientes Integrados

Henrique Rozenfeld

e-mail: roz@sc.usp.br

Cristiano B. M. de Oliveira

e-mail: cbmo@bigfoot.com

Núcleo de Manufatura Avançada 

Escola de Engenharia de São Carlos - Universidade de São Paulo (USP)

1 Introdução

A globalização da economia e o aumento da concorrência a nível mundial têm provocado mudanças significativas no setor de manufatura. Essas mudanças relacionam-se com constante busca de maior flexibilidade e qualidade, além da redução de custos e do tempo de resposta. Para tanto, as empresas de manufatura têm agora que se tornar empresas de classe mundial (world class manufacturing). Um dos caminhos para atingir esse objetivo é a implantação de sistemas integrados de gestão de negócios.

Apesar do desempenho desses sistemas estar vinculado à qualidade das informações que eles manipulam, a maioria das empresas não garante a acuracidade de suas informações fundamentais nem as estruturaram de acordo com os requisitos impostos pelas novas tecnologias, surgidas nos Ambientes de Manufatura Integrada. Essas informações são a base fundamental para a execução das atividades da empresa, uma vez que representam seus processos e produtos.

A estrutura de produto (BOM - bill of material) possui uma posição de destaque entre as informações fundamentais, pois ela representa o ingrediente primário numa base de dados de produto totalmente integrada e um frame para a definição total de produto (GUESS, 1985). A BOM é também um elemento que gera integração uma vez que suas informações são compartilhadas por quase todos os departamentos da empresa. (MARÇOLA, 1995). Logo, a forma como é gerenciada, controlada e estruturada pode diretamente influenciar o sucesso da empresa (RUSK, 1990).

GARWOOD (1995) acrescenta que se uma empresa almeja ser uma world class manufacturing, é de importância vital que a sua BOM seja sólida, representando os processos e produtos, e em sintonia com as estratégias do negócio.

Segundo GUESS (1985), como a BOM é construída em torno da relação pai/filho entre números de identificação (PN - part numbers), esses podem ser considerados a "cola" que mantém a BOM unida, logo a correta definição dos PNs terá influência direta no desempenho da BOM.

Com o objetivo de auxiliar as empresas na correta estruturação de suas informações fundamentais, este artigo apresenta uma revisão dos principais conceitos de estruturação e identificação de produtos.

2 Estrutura de produto

2.1 Definições

Segundo definiu a AMERICAN PRODUCTION AND INVENTORY CONTROL SOCIETY (APICS), em 1992, a estrutura de produto (BOM - bill of material) é uma lista de todas as submontagens, componentes intermediários, matérias-primas e itens comprados que são utilizados na fabricação e/ou montagem de um produto, mostrando as relações de precedência e quantidade de cada item necessário.

CLEMENT et al. (1992) acrescenta que, além desses objetos, a BOM também pode conter outros, tais como, instruções de trabalho ou ferramentas requeridas para suportar o processo de manufatura.

Devido à grande diversidade de objetos que a BOM pode conter, é necessário definir uma nomenclatura padrão para que o uso de cada um deles seja diferenciado e entendido. Segundo a APICS (1992), os objetos da BOM podem ser classificados em:

Neste artigo será acrescentada a classe de objeto "material" a essa classificação, com o objetivo de torná-la mais abrangente e em consonância com diversos sistemas integrados existentes.

Um esquema com as relações de precedência entre os objetos da BOM é apresentado na Figura 1.

Figura 1: Objetos da estrutura de produto

Como citado anteriormente, a BOM é baseada na relação pai/filho entre itens. O item que está sendo produzido é chamado item pai, e os itens requeridos na sua produção são chamados itens filhos ou componentes. Dessa forma, na BOM de um eixo usinado, esse eixo é o item pai e a barra laminada, utilizada como matéria-prima, o item filho. Se o mesmo eixo for utilizado numa montagem posterior, ele passa agora a ser um item filho do novo item montado.

Toda vez que é estabelecida uma relação pai/filho entre um item e seus componentes diretos, a BOM formada é chamada BOM de nível simples. Uma BOM multinível é formada quando as BOMs de um nível são associadas desde as matérias-primas e itens comprados até o produto final, isso ocorre através uma técnica chamada explosão. Dessa forma, todos os itens utilizados direta ou indiretamente na produção de um produto podem ser visualizados (GUESS, 1985).

A Figura 2 apresenta uma BOM que resume os principais conceitos discutidos nesta seção.

Figura 2: Esquema de uma estrutura de produto multinível

2.2 Acuracidade

Uma vez que a BOM representa os produtos de uma empresa, erros em sua estrutura implicarão em erros nos produtos produzidos.

Diante disso, CLEMENT et al. (1992) define que a BOM deve ter uma acuracidade entre 98 e 100 porcento. Isso significa que no mínimo 98% de todas as BOMs de um nível precisam estar 100% corretas. Casos práticos têm mostrado que sistemas MRP que trabalham com BOMs cuja acuracidade é menor que 98% simplesmente falham.

A acuracidade de uma BOM é medida a cada nível simples de uma BOM multinível. A fórmula para o cálculo da acuracidade da BOM, Equação 1, relaciona o numero total de BOMs de um nível corretas (sem nenhum tipo de erro) ao número total de aditadas.

Equação 1

 

Os erros encontrados podem estar em informações incorretas ou omitidas no número de identificação, nas relações entre um item pai e seus componentes, nas quantidades necessárias e nas unidades de medida (GARWOOD, 1995). CLEMENT et al. (1992) destaca a importância da BOM ser completa, incluindo todos os materiais planejados pelo planejamento e controle da produção (PCP) e que são utilizados no cálculo do custo do produto. Esses materiais normalmente incluem embalagem, matéria-prima, ferramentas consumidas, dentre outros.

Por outro lado, GIANESI (1997) discute que o valor de 98% é uma medida simbólica, pois pensando-se num processo de melhoria contínua, qualquer valor diferente de 100% será considerado inadequado. Acrescenta ainda que qualquer erro de acuracidade implicará em maior incerteza nas atividades de planejamento e nas tomadas de decisão, resultando ,por exemplo, em maiores estoques e atrasos nas entregas.

2.3 Estrutura de produto "achatada"

A BOM mais simples possível é a de dois níveis, um com as matérias-primas e itens comprados, e outro com o produto final. A única razão para a criação de mais níveis são as necessidades do planejamento e controle da produção, como por exemplo a criação de submontagens ou itens intermediários que precisam ser estocados (GARWOOD, 1995).

GUESS (1985) apresenta alguns valores de referência para o número de níveis que uma BOM deve ter:

Toda BOM com mais de dois níveis deve ser revisada para identificar oportunidades para ela ser "achatada" (tradução livre do inglês flattened ou shallow bill of material). No processo de "achatar" e simplificar a BOM deve-se ter sempre em mente que a BOM precisa representar os processos de manufatura necessários para a produção do produto final, e não o contrário (GARWOOD, 1995).

Segundo ainda ELSTER (1995), as empresas de manufatura precisam "achatar" as suas BOMs, uma vez que as vantagens resultantes são inúmeras: redução na movimentação de materiais, menos BOMs para dar manutenção, menos erros na entrada de dados, redução do lead time, redução do número de transações de inventário e ordens de produção, menos espaço necessário para armazenamento no computador e melhoria no tempo de resposta, redução do inventário, redução nas atividades administrativas, etc.

2.4 Perfis

Segundo GUSS (1985), o perfil da BOM é determinado por meio da explosão da configuração do produto final em todos os seus componentes, isto é, submontagens, componentes intermediários, matérias-primas e itens comprados, sendo todas as relações pai/filho demonstradas. É importante destacar que a habilidade da empresa em gerenciar as informações e a produção de qualquer produto final começa na identificação do perfil da sua BOM.

Apesar de existir uma grande variedade de produtos e/ou famílias de produtos com diferentes quantidades de itens e níveis, existem diversas similaridades entre seus perfis, os quais podem ser divididos em quatro grupos distintos, conforme a Figura 3.

A BOM com perfil A representa produtos com uma variedade muito pequena de itens finais produzidos a partir de um número também muito pequeno de matérias-primas e itens comprados. O perfil B possui também poucas configurações possíveis do produto final, entretanto a partir de um número maior de itens iniciais e intermediários.

Figura 3: Perfis de estrutura de produto
Adaptado de GUESS (1985) e CLEMENT et al. (1992)

O perfil C eqüivale a um produto com uma grande variedade de configurações produzidas a partir de um limitado número de itens intermediários. Segundo CLEMENT et al. (1992), um caso típico de produto com esse perfil de BOM é o automóvel, para o qual pode ser combinada uma variedade de opções (cor, motor, acabamento, equipamentos, rodas, pneus, etc.), resultando num grande número de configurações possíveis para o produto.

Por fim, o perfil D representa um produto também com uma grande variedade de configurações, entretanto produzidas a partir de um pequeno número de itens comprados e matérias-primas. Segundo CLEMENT et al. (1992), os produtos da indústria têxtil normalmente possuem esse tipo de perfil de BOM. Por exemplo, centenas de camisetas com estilos e cores diferentes podem ser fabricadas a partir de algumas variedades tecidos e tinturas.

Em contraste com os dois tipos apresentados inicialmente, os perfis C e D representam famílias de produtos com grande variedade de configurações possíveis para o item final.

A variação da largura ao longo dos perfis da Figura 3 representa a variação relativa na quantidade de configurações possíveis em cada um dos níveis da BOM. A seção mais estreita desses perfis representa o nível de menor variação de configuração. A habilidade de planejar e controlar o produto através de seu processo de manufatura é expandida quando o nível de menor variação de configuração é focado. As implicações dessa abordagem serão discutidas com mais detalhes quando for apresentada a arquitetura modular para a BOM.

2.5 Pseudo itens e fantasmas

Existem dois tipos especiais de itens discutidos por diversos autores, tais como CLEMENT et al. (1992), MATHER (1986) e ORLICKY et al. (1972), que são os pseudo itens e os itens fantasmas.

Itens fantasmas são aqueles produzidos no processo de manufatura, possuindo "pais" definidos, porém não são tipicamente estocados. Apesar de existirem fisicamente, são rapidamente consumidos como componentes do item de nível imediatamente superior na BOM. Os sistemas de Material Requirement Planning (MRP) geralmente reconhecem os itens fantasmas, e planejam suas necessidades, entretanto esses itens não são programados, e geralmente possuem lead time zero.

Pseudo itens são agrupamentos artificiais de componentes utilizados para fins de planejamento. Ao contrário dos itens fantasmas, entretanto, os componentes do pseudo item não podem ser manufaturados juntos para produzir um item pai que exista fisicamente. Por essa razão o pseudo item nunca possuem inventário.

Segundo GUESS (1985), os itens fantasmas aumentam a flexibilidade de configuração dos itens finais sem penalizar os custos com inventário. O maior problema entretanto é o aumento do número de níveis da BOM, prejudicando a constante busca por uma BOM "mais achatada".

2.6 Arquiteturas

Como a BOM é utilizada por diversas atividades, ela pode assumir diferentes formatos de acordo com a aplicação. Apesar da nomenclatura utilizada variar bastante na literatura sobre o assunto, a apresentada a seguir é uma adaptação das principais classificações encontradas na literatura.

A estrutura de produtos básica, também conhecida com standard BOM, foi discutida no item 2.1. A partir desta estrutura básica podem ser formadas estruturas mais complexas para satistfazer diferentes necessidades, como mostrado a seguir.

2.6.2 Estrutura de produto modular

Conforme visto na Figura 3, a BOM pode ter diferentes perfis. Algumas empresas oferecem um reduzido número de configurações para seus produtos finais. Dessa forma, podem fazer previsão de vendas e programação mestre de produção (MPS – Master Production Schedule) no nível de produtos finais, uma vez que esse é o nível de menor variação na configuração, mantendo uma BOM para cada um desses produtos.

Entretanto, com o aumento da competitividade mundial, o mercado consumidor passou a exigir um tratamento individualizado, fazendo com que as empresas, entre outras medidas, oferecessem produtos com uma grande variedade de configurações possíveis (os dois perfis à direita da Figura 3). Assim sendo, ser modular é uma característica fundamental a vários produtos.

Segundo ORLICKY (1972) e GARWOOD (1995), se um produto possui muitas opções de escolha de itens, as combinações possíveis tornam-se muito grande, dificultando a previsão de vendas e programação mestre de produção de cada item final. Além de que, se for mantida uma BOM para cada configuração diferente do produto, o espaço requerido pode ser muito grande, envolvendo altos custos de armazenagem e manutenção.

GARWOOD (1995) comenta que apesar de parecer óbvio, muitas pessoas esquecem que os computadores têm uma capacidade finita de armazenamento.

A solução para este problema é a utilização da BOM modular. Ao invés de manter uma BOM para cada produto final possível dentro de uma família, são identificadas as opções para cada um dos seus componentes, as quais são organizadas em módulos. Essa análise deve ocorrer no nível de menor variação na configuração, reduzindo assim o número de itens manipulados na previsão de vendas e programação mestre de produção.

Os itens comuns são agrupados em pseudo itens, uma vez que são uma coleção artificial de componentes que não podem ser utilizados na fabricação ou montagem do item pai, sendo criados apenas com propósitos de planejamento. Esses itens estarão sempre presentes na BOM, independente das outras opções escolhidas. Segundo GARWOOD (1995), achar itens comuns deve ser considerado um bônus e não uma necessidade durante o processo de modularização.

Ainda segundo GARWOOD (1995), outra razão para utilizar a BOM modular é em casos em que o lead time de manufatura é maior do que o lead time de entrega aceito pelo consumidor. Nesses casos a modularização pode suportar a implantação da estratégia de estoque assemble-to-order, reduzindo o tempo entre a entrada do pedido do cliente e a entrega. A previsão de vendas é feita no nível dos módulos, os quais são fabricados e estocados. Quando ocorre um pedido do cliente, a configuração desejada é produzida utilizando-se os módulos previamente preparados.

Para ilustrar os conceitos apresentados, é discutido a seguir um exemplo de aplicação adaptado de MATHER (1986).

Uma fábrica fictícia de guindastes oferece o seu produto com diferentes configurações possíveis, Figura 6, o cliente pode optar entre 10 variedades de motor, 10 de tambor, 4 de redutor e 2 de controle, sendo o gancho padrão para todos os produtos dessa família, e não havendo conflito de projeto entre nenhuma das opções.

Essa fábrica tem encontrado um problema. Os clientes querem que os guindastes sejam entregues no máximo 8 dias após a entrada do pedido de compra. Entretanto o lead time total para a produção dos guindastes é de 22 dias. Logo a empresa precisa começar a produzir o guindaste antes do pedido.

Por outro lado, é impossível para a empresa trabalhar com o conceito de make-to-stock no nível dos produtos finais, pois precisaria fazer uma precisão de vendas para as 800 configurações diferentes possíveis (10 motores x 10 tambores x 4 redutores x 2 controles x 1 gancho), contra uma demanda mensal de apenas 50 guindastes. A conseqüência seria um alto nível de inventário e uma baixa precisão nas previsões feitas.

Além disso, a empresa mantinha uma BOM para cada um dos itens finais, exigindo um grande espaço para armazenamento e um grande esforço de manutenção. Se o gancho usado fosse substituído por outro, todas as BOMs teriam que ser alteradas. Ou se fosse adicionada mais uma opção de gancho, o número de BOMs dobraria.

Figura 6: Configurações possíveis do guindaste (MATHER, 1986)

Entretanto, pode-se observar que todos os 50 guindastes produzidos semanalmente possuem sempre o mesmo gancho. Prever a quantidade semanal de cada um dos dois controle numa demanda de 50 também não é um problema difícil. Aplicando-se a mesma lógica para cada elemento projeto reduz-se o problema de previsão de 800 itens finais para apenas 27 variantes (10 motores + 10 tambores + 4 redutores + 2 controles + 1 gancho), que um número muito mais aceitável e fácil de gerenciar. Adiciona-se a isso o fato do item com maior variantes possuir apenas 10 possibilidades.

Esse raciocínio nada mais é do que pensar o produto e sua BOM como modulares, nos quais as variantes apresentam-se como opções a serem escolhidas pelo cliente. Outro benefício dessa abordagem é a redução do número de BOMs que deve ser gerenciada, e conseqüente redução do espaço para armazenamento e o esforço de manutenção. A Figura 7 apresenta a BOM antes e depois da modularização.

A definição do nível da BOM no qual será realizada a modularização depende do lead time de entrega que a empresa vai oferecer a seus clientes e das características do produto e seus componentes.

Figura 7: Modularização da estrutura de produto do guindaste

A modularização da BOM também permitiu à empresa trabalhar com os conceitos de assemble-to-order para o produto final e atender ao cliente dentro do prazo que eles desejam. A Figura 8 mostra os lead times de produção dos componentes e de montagem do guindaste. Antes da modularização, devido à incerteza de previsão, ou a empresa mantinha altos níveis de estoque para atender ao cliente dentro do prazo desejado por ele, ou demorava 22 dias para atendê-lo. Agora, os componentes motor, controle, tambor, gancho e redutor têm sua demanda prevista e produzida para estoque, sendo o produto final montado a partir das opções escolhidas no pedido do cliente.

Figura 8: Lead times para a produção do guindaste

Como ferramenta auxiliar à BOM modular nas atividades de previsão de vendas e programação mestre da produção, foi criada a estrutura de produto de planejamento, a qual apresenta apenas o produto e o nível com as opções de componentes existentes. A cada opção do item é associada a porcentagem do mix de produção referente a ele. Um exemplo de BOM de planejamento para o guindaste é apresentada na Figura 9. Os itens comuns sempre terão previsão de 100%. MATHER (1986) sugere sejam adicionadas às porcentagens coeficientes de segurança para diminuir o efeito de erros na previsão.

Figura 9: Estrutura de produto de planejamento do guindaste

2.6.3 Estrutura de produto de manufatura

Segundo HASTING & YEH (1992), a estrutura de produto e os planos de processo são dois elementos chaves nas atividades de planejamento e controle da produção, porém a maioria dos sistemas de informação considera-os de forma separadas.

Por esse motivo, a BOM de manufatura propõe a integração lógica da estrutura de produto e do plano de processo. A seqüência de operações é especificada e a cada operação são associados os itens necessários da BOM.

Segundo COX & FINCH (1989), a BOM de manufatura é usada como um guia para fabricação e montagem de um produto, sendo que seus níveis refletem o fluxo de produção e pontos de estoque.

A Figura 10 apresenta um exemplo de aplicação da BOM de manufatura. À esquerda da figura está representada a BOM tradicional do produto A, o qual é montado com duas unidades do item comprado C e uma unidade do item B, fabricado a partir de uma unidade da matéria-prima D.

À direita da figura está representada a BOM de manufatura multinível para o mesmo produto A, sendo formada pela associação lógica das de nível simples dos itens A e B. Nota-se que a BOM de manufatura é muito mais rica em informações do que a BOM tradicional, uma vez que se pode, por exemplo, saber todas as etapas de manufatura entre os itens D e B.

Figura 10: Exemplo de estrutura de produto de manufatura (Adaptado de MARÇOLA, 1995)

A BOM de manufatura é especialmente interessante na programação da produção de produtos com montagens demoradas, componentes caros e defasagem de tempo entre a utilização deles na montagem. Por exemplo, um BOM de um avião, Figura 11, que seja montado a partir dos componentes fuselagem, trem de pouso e turbina. Como esses itens pertencem ao mesmo nível da BOM tradicional, eles seriam programados para estarem disponíveis no mesmo momento e serem montados.

Entretanto, de acordo com o plano de processo, a primeira montagem utilizará apenas a fuselagem e os trens de pouso, sendo as turbinas montadas uma semana depois. Percebe-se que se os itens chegarem juntos, as turbinas ficarão estocadas uma semana, com conseqüentes custos não só de armazenamento, mas também o capital investido nas turbinas permanecerá parado.

Por outro lado, com a integração entre BOM e plano de processo, podem ser considerados durante as atividades de programação não só os lead times do itens, mas também os tempos e os itens necessários em cada operação. Dessa forma, as turbinas chegariam no momento de sua montagem e não no início.

Figura 11: Estrutura de produto de manufatura do avião exemplo

HASTING & YEH (1992) demonstram uma série de vantagens adicionais da BOM de manufatura:

2.6.4 Estrutura de produto genérica

VAN VEEN & WORTMANN (1987), discutem a criação de uma BOM genérica, a qual seria uma variação da BOM aplicada para fins de configuração de produtos.

A Figura 12 ilustra a BOM genérica de uma cadeira montada a partir dos componentes assento, pernas e encosto. Para as tapeçarias tanto do assento quanto do encosto pode-se optar pelas cores azul e vermelho.

Figura 12: Estrutura de produto genérica de uma cadeira
(Adaptado de HEGGE & WORTMANN, 1991)

Na BOM genérica podem ser identificados dois tipos de itens, os específicos e os genéricos, os quais correspondem, respectivamente, a itens sem e com opções de escolha. A estrutura e a perna são exemplos de itens específicos.

A tapeçaria é um item genérico direto, porque representa um grupo limitado de opções. A cadeira, o assento e o encosto são itens genéricos indiretos, uma vez que não possuem opções, mas pelo menos um dos seus componentes são itens genéricos.

Para gerar uma bom específica da cadeira, basta configurar a genérica a partir da escolher entre as opções azul e vermelho para as features tapeçaria do assento e do encosto.

A BOM genérica permite que sejam estabelecidas relações de dependência entre as features. Por exemplo, pode-se ser estabelecida uma regra para uma vez escolhida uma cor para a tapeçaria do assento, essa deve ser a mesma para a do encosto.

Segundo VAN VEEN & WORTMANN (1987), a BOM genérica não pode ser diretamente usada para propósitos de planejamento ou manufatura. Ela é apenas um frame para a criação de uma BOM específica no momento necessário, isto é, na configuração de produto durante a entrada de um pedido pelo cliente. A BOM genérica torna o processo de configuração mais rápido e com menor possibilidade de erro.

2.6.1 Relatórios das estruturas de produto

Os relatórios padrão são gerados pelos sistemas de informação para suportar análises diversas sobre a BOM e seus itens. Segundo GUESS (1985), os principais formatos destes relatórios são:

 

nível

descrição

C/F

unidade de medida

quantidade

0

       

produto

     
 

1

     

montagem 1

C

un.

1

 

1

     

montagem 2

F

un.

2

   

2

   

submontagem 1

F

un.

1

     

3

 

peça comprada

C

un.

2

     

3

 

peça fabricada

F

un.

1

       

4

matéria-prima

C

mm2

DxL

   

2

   

submontagem 2

C

un.

1

 

1

     

embalagem

C

un.

1

C/F: comprado ou fabricado; un.: unidade

Figura 4: Estrutura de produto "indentada"

 

   

PN produtos

PN componente

unidade de medida

2357

5892

6723

5367

un.

1

3

 

2345

un.

2

1

6

7891

kg

5

 

4

4034

un.

 

3

2

1502

mm3

 

500

400

9865

un.

7

8

5

8890

mm2

20

30

 

un.: unidade

Figura 5: Estrutura de produto matriz

 

3 Identificação de produtos

Segundo CLEMENT et al. (1992), o primeiro passo no processo de construção da base de dados de informações fundamentais é a correta definição dos números de identificação, com regras claras para designar, alterar e controlá-los.

Além disso, uma vez que as relações pai/filho estabelecidos na BOM são baseadas nos números de identificação dos itens envolvidos, erros na transcrição desses implicarão diretamente na acuracidade da BOM.

APICS (1992) define número de identificação (tradução livre de PN – part number ou item number) como um número que serve para identificar de forma única um item. Esse número pode ser classificado em:

Ex.: PN 123 M 456

Onde 123: material

M: fabricado

456: número do desenho de engenharia

Diversos autores, como ELLIOTT (1985), GUESS (1986), SAMELSON (1990), CLEMENT et al. (1992) e GARWOOD (1995), criticam e não recomendam o uso de números de identificação significativos devido à série de problemas e desvantagens inerentes ao seu uso, as quais são apresentadas a seguir.

CARLSON (1983) apud ELLIOTT (1985), em suas pesquisas práticas, notou que as pessoas estão sujeitas a dois erros de interpretação ao usarem PNs significativos:

A criação de um sistema de números de identificação significativos (ou inteligentes) não é uma tarefa fácil e rápida, exigindo um grande esforço no seu desenvolvimento (SAMELSON, 1990) e no treinamento dos usuários (ELLIOTT, 1985).

A flexibilidade desse sistema é também pequena. Segundo CLEMENT et al. (1992), alterações nas características do produto podem tornar dígitos antes significativos em não significativos, ou implicar em esforço adicional de manutenção.

Considere, por exemplo, o PN 123 M 45678, no qual os três primeiros dígitos representam o material utilizado, a letra indica se é um item comprado (B) ou fabricado (M), e os quatro últimos são não significativos.

Se for decidido trocar o material desse item por razões quaisquer, os dígitos correspondentes ou perderão o significado, ou necessitarão de manutenção juntamente com as BOMs que o utilizam esse PN. Num ambiente cada vez mais competitivo, com a necessidade de alterações freqüentes nos produtos, a vida desses dígitos significativos é efêmera.

Esses problema são intensificados se o número de identificação é longo. Segundo CLEMENT et al. (1992), os PNs significativos são mais longos que os não significativos porque necessitam de um maior número de dígitos para representar as características do item.

SAMELSON (1990) apresenta alguns problemas que podem ocorrer na transcrição de um PN longo:

Além disso, muitas empresas utilizam nos PNs dígitos alfanuméricos para possibilitar a existência de maior número de caracteres disponíveis. Porém, dígitos alfanuméricos possuem maior possibilidade de erros, devido a similaridades entre existe entre alguns números e letras, como "l" (ele), "I" (i) e "1" (um); "O" (ó) e "0" (zero); "Z" (zê) e "2" (dois) (CLEMENT et al., 1992). Caracteres alfanuméricos não permitem também uso do dígito de soma (checksum) (SAMELSON, 1990)

O dígito de soma é fornecido pelo sistema computacional ao ser cadastrado um novo PN, e eqüivale à unidade resultante da soma dos outros dígitos. Por exemplo, o PN 12345 teria como checksum número 5 (1+2+3+4+5=15, cuja dezena é 1 e a unidade é 5). Quando esse PN for fornecido novamente ao sistema durante alguma atividade, a soma será checada e se a unidade for diferente de 5, o sistema indicará que existe algum problema. Dessa forma, minimizam-se erros durante a transcrição de um PN.

ELLIOTT (1985) e GARWOOD (1995) acrescentam que erros no uso de PNs têm impacto direto sobre a acuracidade da BOM, além de levar as pessoas a não acreditarem no sistema de informação da empresa, alastrando-se o uso do sistema informal.

Figura 13: Probabilidade de erros na transcrição versus
tamanho do número de identificação (GARWOOD, 1985)

A Tabela 1 apresenta de forma resumida um comparativo entre o uso de PNs significativos e não significativos.

característica

PN significativo

PN não significativo

impacto na acuracidade

adversa

positiva

risco de erros na interpretação

alta

nenhuma

porcentagem de erros durante a transcrição

alta

baixa

uso dos recursos humanos e computacionais

pobre

bom

tamanho

longo

curto

redundância com outras fontes de informação

sim

não

possibilidade de inconsistência

sim

não

flexibilidade

não

sim

alterações nas características do item implicam na troca do PN

sim

não

Tabela 1: Comparação entre os números de identificação significativos
e não significativos (ELLIOTT, 1985)

PNs significativos faziam sentido quando os computadores possuíam capacidade muito pequena de armazenamento e baixa velocidade de processamento, sendo necessário usá-los como uma forma de acesso rápido e fácil às informações do item. (CLEMENT et al., 1992)

Hoje com as bases de dados relacionais é possível transferir as informações que estavam no PN para o arquivo mestre de informações do item e/ou para o sistema de classificação. Dessa forma, o PN passaria a ser usado como um ponteiro para todas essas informações descritivas (SAMELSON, 1990).

Segundo GUESS (1986) e ELLIOTT (1985), como o computador possibilita a associação entre o PN e outras informações, com recuperação rápida dessas informações, pode-se considerar que os computadores reduziram a dependência com relação os PNs significativos e possibilitaram o uso de PNs menores.

Se o PN significativo for usado, ele será redundante com as informações do arquivo mestre de informações do item e do sistema de classificação, e a necessidade de atualizar a mesma informação em mais de um lugar pode levar a inconsistências.

Todos os autores citados, ELLIOTT (1985), GUESS (1986), SAMELSON (1990), CLEMENT et al. (1992) e GARWOOD (1995), recomendam um sistema de números de identificação baseado em caracteres numéricos apenas, absolutamente sem significado, com o menor tamanho possível, designados seqüencialmente, sendo o último dígito um checksum.

Uma vez estabelecido o formato do PN, ficam ainda duas importantes questões:

1. A quais itens deve ser fornecido um PN?

Segundo GARWOOD (1995), deve ser designado um número de identificação a todo item:

2. Quando é necessário trocar o PN?

Diversos autores, como CLEMENT et al. (1992), GARWOOD (1995) e GUESS (1985) concordam que dois itens possuem PNs diferentes quando não são intercambiáveis, e as regras para gerenciar as trocas do PN devem partir desse princípio.

Segundo CLEMENT et al. (1992), apesar dos critérios de intercambiabilidade serem definidos pela política da empresa, esses devem ter como linhas gerais que um item é intercambiável quando ele:

O número de identificação só deve ser trocado quando forem feitas alteração que afetem a forma, dimensão ou função de um item ou sua intercambiabilidade. Caso contrário, só deve ser alterado o nível de revisão do item, o qual não faz parte do PN, e sim arquivo mestre de informações do item.

Se as alterações num item filho tiverem impacto também na intercambiabilidade do item pai, este último também deve ter seu PN trocado, e assim sucessivamente.

Por fim, GARWOOD (1995) acrescenta que, apesar de ser uma prática comum em algumas empresas, o PN e os desenhos de engenharia não devem ter o mesmo número, uma vez que servem para propósitos diferentes, um é o identificador e o outro a representação visual do item. Caso contrário, uma série de problemas poderão existir.

Alterações no item que afetem a intercambiabilidade (p.ex.: uma tolerância) podem exigir um novo PN, mas não um novo número para o desenho, apenas a mudança do nível de revisão. Além disso, existem itens que não têm desenho ou que são semelhantes e compartilham o mesmo desenho (p.ex.: só diferem no material utilizado).

O PN do fornecedor não deve também ser usado no lugar de um PN próprio. Se o fornecedor trocar o seu PN ou se a empresa trocar de fornecedor, todas as BOMs que usam o correspondente item terão que ser atualizadas, envolvendo um grande esforço de manutenção.

A melhor opção é armazenar tanto o número de identificação do fornecedor quanto o número do desenho de engenharia no arquivo mestre de informações do item.

4 Considerações finais

 

5 Referências bibliográficas

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